Desenvolvimento induzido no interior do Ceará

Já lá vai quase um mês que os líderes políticos das nações se sentaram nas poltronas da sala de conferências do Rio+20 para discutir futuras estratégias para o desenvolvimento, um novo conceito alicerçado em fortes políticas sociais em prol da projeção da “economia verde” implementada em muitos países ditos desenvolvidos. Do Rio+20 resultaram diversas discussões sobre as perspectivas dos países emergentes como o Brasil no que toca à aposta numa sociedade de conhecimento com elevado investimento em estruturas que assegurem o acesso à energia limpa e água potável, conduzindo também a um sistema agrícola diversificado e com elevados níveis de eficiência e produtividade para todos.
A Rio+20 foi, na verdade, mais umas das várias reuniões do clima onde se discutiram assuntos relacionados com a escassez de recursos naturais e as assimetrias sociais no acesso a tais recursos. Fora da arena principal da conferência da ONU, na “cúpula dos povos” tiveram lugar a difusão de experiências vividas por comunidades de todo globo, nomeadamente a vivência e percepção das comunidades indígenas sobre o problema climático do desenvolvimento econômico do Brasil que, apesar não crescer a uma taxa elevada, está a fazer-se no notar na paisagem da amazônia, catinga e mata atlântica.

O acesso à energia limpa e as cidades sustentáveis são hoje temas que procuram um acordo num fogo cruzado entre o governo, industriais e os desejos dos cidadãos ou ocupantes do território deste país da América latina. A implementação efetiva de uma matriz energética mais limpa e redução da dependência dos combustíveis fósseis tem vindo a ser fortemente discutida nas arenas políticas do Planalto Central. O Brasil é hoje um dos maiores produtores mundiais de energia hídrica e em muitos estados, este vector energético ultrapassa os 50% do consumo de energia final no país, sendo cerca de 40% dessa energia consumida em processos industriais, 15% no setor residencial e o restante no setor dos transportes, comercial e público.

A matriz energética Brasileira suporta as necessidades no abastecimento eléctrico, processos térmicos industriais e ao nível residencial de cozinha (no sul do Brasil para o aquecimento de espaços e águas sanitárias) e nos motores de combustão nos transportes. O futuro modelo energético deste país da América latina apresenta uma vastidão de oportunidades de melhoria de eficiência, nomeadamente no que respeita à conservação de energia através da arquitetura de redes de mobilidade mais sustentável e de edifícios de baixo consumo. Muitas regiões remotas do Brasil apresentam ainda hoje um elevado consumo de lenha para fins de cozinha, sendo este fato considerado como um problema para a saúde ocupacional de muitas mulheres e crianças.

Esta semana visitamos algumas habitações localizadas na comunidade de “Cabeça Preta” no baixo Jaguaribe – município de Limoeiro, onde falamos com algumas pessoas abrangidas por um projeto social de instalação de fogões eco-eficientes, um fogão desenvolvido pelo Instituto do Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis, conceito disseminado em diversas comunidades do estado do Ceará. Durante a nossa visita conversamos sobre as novas tendências no acesso à energia para fins de cozinha nesta região e os recentes incentivos do governo para na compra do “botijão de gás” através do “vale gás”. Segundo o Sr. Zé e a Dona Ironeide os fogões a lenha são mais económicos e funcionam bastante bem depois de preparar a fogo, porém, eles são pouco práticos para quem tem um dia aterefado e difíceis de manusear pois requerem elevada atenção, principalmente para quem tem crianças em casa. Este novo fogão eco-eficiente conserva muito calor dentro das habitações e pode até ser perigoso para as crianças.

Do ponto de vista da sustentabilidade ambiental a utilização racional da lenha pode constituir um “processo de transição” para um sistema integrado de energias limpas, evitando o consumo de combustíveis fósseis, contudo, a vontade e o desejo das populações no remoto Ceará aponta para a utilização do tão agraciado botijão, que é barateado pelo “vale gás” e torna o dia mais prático e confortável, afinal as populações mais afastadas dos centros urbanos também têm direito a esse conforto, certo…

A questão que se coloca é para onde é mobilizado o capital e que sistemas de incentivo poderão potenciar o desenvolvimento da economia verde num país em pleno desenvolvimento econômico? O Brasil mais do que nunca cresce na sua plenitude natural assentado no seu potencial de recursos, mas que caminho se procura para desenvolver o remoto e difuso plano energético tão debatido pelo mundo na Rio+20?

O acesso à energia alimentará certamente a capacitação das pessoas e facilitará a acelerada rotina que já se vive em estados mais distantes dos pólos industrializados de São Paulo e Rio de Janeiro, mas o que buscamos construir em regiões promissoras para a energia solar e eólica do nordeste desta efervescente economia dançarina ao som da sua pujança natural e cultural?

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Low cost traveler and engineer learning and working with commuties around the world; Enjoy very much to meet different people and cultural exchange!
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